O PIOR AMIGO DO HOMEM

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Costuma-se dizer que “o cão é o melhor amigo do homem”, tudo bem, mas quem será o pior? Vale contar uma história real e, por isso mesmo, muito engraçada.

Comecemos pelo seu Afonso, o típico chefe de família, de pouca conversa, muitas certezas e ordens que ninguém ousava contestar. Era boa pessoa, mas assumia aquele papel que não admitia vacilações ou dúvidas, o que se completava com seu porte ao estilo militar, a voz forte e o seu carro, um Aero Willys verde.

Verão. Sábado de carnaval e a família vai passar o feriado no seu sítio, quase uma fazendola, que ficava 100 quilômetros distante de Porto Alegre.

Além da esposa e dos filhos, iam junto duas meninas que eram criadas por ele e ajudavam no serviço da casa.

O carro já estava lotado quando surge a grande questão.

E a Diana?

O cachorro de estimação da família era uma cadela já um pouco velha, da raça que hoje dizem ser pastor alemão, mas naquele tempo chamavam policial. Não havia os hotéis para cães, hoje tão comuns, e ninguém queria deixar o animal sozinho durante a ausência de todos.

A Diana vai. Disse, sem dar margem à discussão, o pater familiae na sua voz tonitruante.

Assim estava vencida a primeira etapa, sobre a certeza da ida da cadela, mas a dúvida instalada ninguém ousava mencionar: vai onde?

Era preciso lembrar que, além da família, iam também em outro carro, como convidados, alguns amigos dos filhos, que assistiam a cena da partida familiar.

“Dentro do carro não. Não tem lugar”. Disse com a convicção de sempre. Porém, sua certeza remetia o animal para o porta malas, o que causava grande apreensão entre os filhos.

Ele mandou esvaziar um pouco o porta malas e colocar algumas sacolas no colo dos passageiros, assim encontrou lugar para acomodar a Diana, que relutava em entrar.

Pela primeira vez uma decisão sua foi contestada, ou, pelo menos, questionada. Os filhos perguntavam se ela iria agüentar, pois fazia calor e era uma viagem de mais de hora.

Não tem problema, ela agüenta e logo já estaremos lá; disse ele, encerrando qualquer questionamento. A seguir, fez questão de pessoalmente colocar a cadela no porta malas. Ela não ofereceu maior resistência. A Diana, confirmando a tese do melhor amigo do homem, talvez tivesse percebido que não poderia resistir à ordem de seu dono, nem fragilizar sua autoridade diante da platéia temerosa com a decisão.

O relato da viagem era de dar pena. Silêncio absoluto e apenas alguns ganidos e agitação do animal trancafiado. Alguém pensou em pedir para parar, mas não teve coragem de propor. A distância parecia que era em metros e o tempo custava para passar. O seu Afonso na direção pilotava devagar e falava pouco, limitando-se a alguns comentários sobre a estrada, outros carros, mas que não chegava a prosseguir numa conversa.

À medida que iam se aproximando a agitação da cadela foi diminuindo e isso aumentava a preocupação geral.

Os convidados, que estavam em outro carro, vieram mais rápido e já estavam no local.

A chegada na frente da casa do sítio foi uma cena antológica.

O sol brilhava e estava quente. Foi o próprio seu Afonso que abriu o porta malas diante de todos, que estavam curiosíssimos.

A Diana não saltou para fora e teve de ser retirada nos braços pelo seu Afonso.

O animal tentou manter-se em pé e caminhar, mas caiu desfalecida para o lado.

Ele nervoso gritou para que trouxessem água, que tentou fazê-la beber sem sucesso.

Então despejou a água na cabeça do animal, que esboçou uma tênue reação.

Era um silêncio em que se ouvia o zumbido das moscas.

Foi quando um dos convidados dos filhos, famoso por sua irreverência, quebrou o silêncio e disse:

“Tenta a respiração boca a boca, seu Afonso”.

O velho saiu de si e disparou em direção ao rapaz, que corria desesperado rumo à porteira, dizendo:

“É brincadeira, seu Afonso, eu sou seu amigo, é tudo brincadeira”.

Dizem que se ele tivesse uma arma, teria ocorrido um homicídio em pleno carnaval.

Os amigos do convidado irreverente o levaram embora; pois, nessas ocasiões, é prudente trocar a “presença de espírito” pela “ausência de corpo”...

Música: ESTATE– Giusy Ferreri



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